Nascida em Barra do Garças, apaixonada pela docência superior e empreendedorismo, fascinada por educação, pesquisa e tecnologia, maratonista, leitora assídua, formada em Odontologia na Universidade Federal de Goiás (UFG), Mestre em Clínica Odontológica também pela UFG. A entrevistada da semana é Wanessa Ferreira Franco.

    • Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 50% da população brasileira adulta tem apenas 20 ou menos dentes funcionais. Quais são os maiores motivos que desencadeiam esse fenômeno? E como isso afeta a saúde pública em geral?

    Nós estamos falando de uma situação infelizmente ainda frequente no Brasil: a perda parcial ou total dos dentes. Isso causa um desequilíbrio para todo o sistema estomatognático do indivíduo. O edentulismo, a perda total dos dentes, é um dos agravos da saúde bucal. Existem programas para evitar que isso ocorra, porém quando chegamos ao extremo, é necessário reabilitar, ou seja, minimizar os danos. Pensando em Saúde Pública, o ideal seria prevenir, realizando orientações de higiene bucal, ações sociais e trabalhando em conjunto com a rede pública de saúde. É importante também ampliar a parceria com instituições público/privada, nesse sentido de educar e orientar quanto a higiene bucal. Por que muitas vezes a informação e orientação não chega, ou então, não mobiliza o indivíduo em si. No entanto, na minha opinião, a chave principal para evitar esse extremo é a prevenção.

    • Essa é uma das questões que você tem abraçado como docente?

    Com certeza, aqui no Univar eu sou professora de uma disciplina denominada Clínica Ampliada de Promoção de Saúde. Nós trabalhamos todos esses assuntos, especialmente no segundo ano da nossa graduação. Temos ações coletivas específicas para todas as faixas etárias, desde crianças, gestantes, adolescentes, adultos e idosos. Nas demais ocasiões, no atendimento em Estágio de Clínica Integrada, tratamos primeiro das alterações já instaladas, dor, cárie e doença periodontal, conferindo saúde para o paciente. Depois, realizamos o condicionamento e orientação em saúde bucal, para finalmente pensar na reabilitação. Eu diria que essa é uma bandeira que eu levanto invariavelmente. Não adianta finalizar um tratamento, se não existir um condicionamento e manutenção da saúde bucal. O paciente tem que sair daqui reabilitado, sabendo cuidar de sua saúde bucal, passando fio dental e assim, prevenindo novos agravos ou doenças.

    • O mercado de trabalho de lentes de contato dentais está em alta. Isso reflete uma população preocupada com a saúde bucal ou é apenas uma tendência estética?

    Eu acredito que existe uma preocupação exacerbada com a estética, e não com a saúde bucal propriamente dita, justamente porque vivemos em um mundo digital. Hoje nos relacionamos diferente, nos enxergamos de forma diferente. Cada vez mais, as pessoas buscam melhorar a aparência e o sorriso compõe grande parte desse clamor pela beleza e a estética. Particularmente, eu amo a Odontologia estética, é minha área de atuação clínica, porém a minha preocupação é a indicação de tratamento. E é nesse quesito que inicia a responsabilidade do cirurgião-dentista em fazer uma indicação correta, um diagnóstico correto e ter uma conversa franca com o paciente, sempre optando por um tratamento minimamente invasivo. Essa é a minha opinião em relação a lente de contato: indicação. Se houver, deve se fazer um procedimento minimamente invasivo. Depois do avanço no processo de adesão e com a Odontologia adesiva podemos oferecer tratamentos de maior longevidade e naturalidade. A maioria das pessoas querem dentes brancos, mas o natural não é o totalmente branco. O esmalte dentário não é opaco, é translúcido. A opacidade vem da dentina. Para reabilitar de uma forma natural, tem que levar em consideração a característica natural do tecido dentário. Temos que mimetizar a natureza, aquilo que é fisiológico. Nesse caso, é fundamental que exista um planejamento cuidadoso, bom senso e orientação profissional. O cirurgião-dentista deve antes de tudo, presar pela saúde bucal, integridade e conduta ética, sabendo dialogar com o paciente, explicando todos os pontos do tratamento. A ética é fundamental em todos os momentos da Odontologia.

    Da direita para esquerda, professora Wanessa Franco é a quarta, numa ação com os alunos na Praia Quarto Crescente.

  • Quais são os perigos de um odontólogo que não segue os padrões de ética?

Nossa profissão é regulamentada por uma legislação, temos um código de ética a ser cumprido. E isso, eu sempre reforço com os meus alunos. O prontuário é um documento, hoje, a fotografia de planejamento digital é um documento, no consultório particular, o plano de tratamento é um contrato. Por isso, nenhum documento ou procedimento deve ser negligenciado. O plano de tratamento que o dentista oferece para o paciente é de responsabilidade dele, enquanto profissional. No mínimo, o cirurgião-dentista tem que oferecer a melhor opção, o mais indicado para aquele caso específico, esclarecendo ao paciente todas as limitações. Essa é a postura que desejamos em todo e qualquer profissional. Por exemplo, quando vamos ao médico esperamos que ele nos dê uma consulta atenciosa, um diagnóstico correto, prescreva o melhor remédio e com os conhecimentos mais atuais em sua área. Na Odontologia não é diferente. Quem vai ao dentista quer o melhor diagnóstico, a técnica mais atualizada, o material inovador e o melhor plano de tratamento. Faz parte da conduta ética e responsabilidade do profissional agir dessa forma, sendo diligente com o nosso paciente.

  • Você acha que vivemos uma crise desses valores éticos?

Com certeza, eu acredito que hoje as pessoas confundem dinheiro com riqueza. É lógico que o dinheiro é a moeda de troca, é fundamental, tem que existir, e a gente tem que saber lidar, mas riqueza é muito maior que isso. Na Odontologia é assim, nós transformamos sorrisos, oferecemos saúde, e muitas vezes, proporcionamos tempo de vida aos nossos pacientes. Para mim, isso é riqueza, individual e profissional. Eu quero muito que meus alunos sejam bem-sucedidos e realizados financeiramente, mas que isso seja pautado em valores. Por exemplo, em relação ao câncer de boca, seja em uma consulta inicial ou de rotina, se eu sei identificar uma lesão potencialmente maligna, consigo realizar um diagnóstico precoce, eu estou dando anos de vida para o meu paciente. Trata-se de longevidade, oportunidade de viver mais e melhor. A Odontologia vai muito além do dinheiro, há valores humanos e fundamentais por trás disso.